A Maratona (escrito em 2015)
- Feb 23, 2021
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Correr uma Maratona (e coloco o M em maiúsculas pelo "respeito que me merece esta distância) nunca é um "docinho"...
É comum ver Maratonistas a chorar ou perto disso quando terminam uma Maratona, não me custa admitir que só muito a custo segurei as lágrimas, na minha primeira Maratona, não pelas dores musculares, essas podem variar consoante o nível de intensidade que se colocou na prova e pelo nível de treino de cada atleta, mas pelo desgaste emocional que provocam.
Acho que não é possível de todo descrever com exactidão o que se sente, só quem já passou pela experiência consegue perceber o que é correr uma Maratona, acabamos normalmente com um misto de orgulho intenso, um desgaste igualmente intenso e as emoções em intensidade máxima.
Toda a experiência de correr uma Maratona começa normalmente (para os mais rigorosos) uns quatro meses antes da prova propriamente dita.

Os treinos (eu costumo fazer uma média de 800 kms de corrida continua) a preparação dos próprios treinos, sobretudo os "longões" ao fim de semana, com Domingos a sair da cama as 04h da manhã porque vamos fazer 32k e no país onde vivemos às 08h estão 30 graus e toda a logística inerente à preparação para o grande dia fazem parte de um grande ritual que nos faz por vezes sem o ser, profissionais da corrida.
A família, no meu caso a Tânia que têm paciência de sobra para as minhas "pancas" e conversas intermináveis sobre treinos e o dia da prova, também sofrem com tudo isto.
Sair à noite antes de um treino longo? Fora de questão.
Jantar em casa com amigos? Sim, mas as 11h o mais tardar quero essa malta toda daqui para fora que eu preciso de descansar.
Uma boa "vinhaça" a acompanhar o jantar? Épa, nem pensar, uma vez fiz isso antes de um treino mais longo e fiquei com a sensação que durante o treino o meu suor tinha uma cor esquisita (mais para o roxo, a apontar para o tinto de umas horas antes).
O treino é sem dúvida uma parte muito importante do processo que nos vai levar a estar em condições de concluir a prova com sucesso (e aqui o conceito de sucesso depende de cada um, para alguns será baixar as 3h para outros será conseguir acabar) mas mais importante ainda na minha opinião é o factor psicológico. (claro que também é preciso ter sorte com as lesões e passar por estes quatro meses sem doenças, uma constipação mais forte pode arruinar uma semana de treinos).
Devo dizer que nas minhas três experiências "Maratonisticas" o treino nunca foi factor diferenciador para me apresentar mais ou menos preparado.
Já o psicológico fez toda a diferença...
Na minha primeira Maratona, Porto em 2011, fui confesso cheio de receio, receio sobretudo de não conseguir acabar, afinal de contas já tinha dito a "meio mundo" que ia correr a Maratona! E se não conseguisse acabar?
Com que cara iria eu encarar todo este pessoal?
Foi uma prova difícil mas onde consegui ser muito regular (fui sempre a medo, medo de me desgastar demasiado nos primeiros kms e não conseguir acabar), 4h13h onde só "quebrei" por volta dos 39km, a cabeça dizia às pernas para se mexerem, mas as pernas pareciam dois "tocos" de madeira. No final, muito orgulho por um desafio enorme ter sido ultrapassado com sucesso.
Tóquio, quase quatro anos depois não foi preciso encontrar outra motivação que não a de saber que fui um dos felizardos em conseguir uma vaga (1 em cada 10 que tentam a inscrição ficam de fora), uma das seis melhores Maratonas do Mundo (https://www.worldmarathonmajors.com/) com cerca de 2.000.000 (sim, dois milhões) de pessoas a assistir nas ruas.
Quando acabei (fui com uma amiga que fazia a sua estreia na Maratona e que acabou a sentir todas as "intensidades" descritas acima) se me tivessem pedido para fazer mais 10/20 kms não me teria importado...
Estava preparado fisicamente e mentalmente, sabia que a conseguia fazer, mas também sabia que existe sempre uma grande dose de sofrimento associado.
Além disso era o elemento mais experiente da equipa (composta por mim e pela Cátia, não a podia deixar ficar mal)
Lembro-me de irmos jantar à noite depois da prova e subir as escadas do metro, a cada dois degraus. A Maratona estava feita, foi fácil, deu-me imenso prazer fazê-la e para além disso acabei "fresco" (4h06m, podia ter acabado facilmente abaixo das 04h)
Mas a verdade é que eu sou daqueles que precisa de ter um objectivo/desafio para me levantar de manhã cedinho e calçar os ténis, gosto muito de correr é verdade (muito possivelmente porque não tenho aptidões naturais para qualquer outro tipo de desporto) mas preciso de um desafio caso contrário fica bem mais difícil
Ok...nesse caso que tal a Maratona de Bali? Final de Agosto (seis meses depois de Tóquio) pertinho de Timor e com um clima muito semelhante.
Parece-me bem, vamos lá treinar novamente, repetir todo o treino que fiz para Tóquio.
Possívelmente o meu primeiro erro, tenho de começar a variar os treinos, só corrida continua não é suficiente, depois a sensação de que iria ser fácil (então não foi tal fácil em Tóquio com menos de 10 graus, um percurso praticamente plano e ruas sempre apinhadas de pessoas a aplaudir-nos e a incentivar-nos?)
A realidade é que não fui bem preparado para esta prova, se é verdade que treinei praticamente sempre com dores num dos joelhos e atormentado por algumas constipações, também não me preparei bem no aspecto psicológico, achei que seria fácil, era mais uma para acrescentar ao "currículo"
Pois...como tudo na vida, o que parece fácil nem sempre o é, e quando menosprezamos determinadas tarefas, as coisas podem complicar-se.
Fui para Bali com o espírito de férias, almoçaradas com amigos, passeios aos arrozais (muito bonito by the way) pouco descanso.
A prova começou as 05h com 90% de humidade e uma temperatura a rondar os 25 graus, logo ao inicio não me sentia com muita energia, aos 18/20 kms o objectivo passou a ser conseguir acabá-la...
Lembro-me de pensar que se conseguisse chegar aos 30kms, depois só faltariam 12kms (o que são 12kms?) se chegasse aos 35kms que só faltariam 7kms (favas contadas), mas só quando vi a marca dos 40kms é que acredite que iria conseguir acabar...
Ficou a experiência, espero ter conseguido aprender alguma coisa com ela...lembram-se do que escrevi ao inicio? é verdade...não é "docinho" nenhum, para a próxima irei certamente mais bem preparado, sobretudo psicologicamente.
Até lá...há que procurar um novo desafio para me fazer levantar da cama cedinho...




































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